13 DE MARÇO DE 1964. 13 DE MARÇO DE 2015. SEXTA-FEIRA.

As coincidências entre o dia 13 de março de 64 e o que se aproxima vão além de caírem no mesmo dia da semana, uma sexta-feira. Apesar de Dilma Rousseff, reeleita presidenta em outubro do último ano, ter alcançado apenas 35% dos votos válidos em todo o estado paulista, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) organizou uma manifestação na cidade de São Paulo, convocando as pessoas às ruas em resposta ao movimento pró-impeachment, que também organizou uma passeata para o dia 15. 

Há 51 anos acontecia o grande Comício da Central do Brasil em favor das Reformas de Base. Em meio à Guerra Fria e à radicalização ideológica entre esquerda e direita, o evento foi visto por setores mais conservadores como uma perigosa aproximação com o bloco comunista. O então presidente da República João Goulart discursou para uma massa de mais de 100 mil pessoas. O deputado federal pelo estado da Guanabara, Leonel Brizola, também subiu ao palanque declarando que a manifestação era um encontro do povo com o poder público. “O povo está aqui para clamar, para reivindicar, para exigir e para declarar sua inconformidade com a situação que estamos vivendo”, dizia. 

Brizola acreditava no poder do povo e que sua união poderia garantir o pleno exercício da democracia. “Chegamos a um impasse na vida do nosso país. O povo brasileiro já não suporta mais suas atuais condições de vida. […] Não podemos continuar nesta situação. O povo está exigindo uma saída. Mas o povo olha para um dos poderes da República, que é o Congresso Nacional, e ele diz NÃO, porque é um poder controlado por uma maioria de latifundiários, reacionários, privilegiados e de ibadianos. É um Congresso que não dará nada mais ao povo brasileiro. O atual Congresso não mais se identifica com as aspirações do nosso povo. A verdade é que, como está, a situação não pode continuar”, bradou o político. 

O então presidente da UNE, José Serra também discursou para os 100 mil, pedindo que a população também se unisse. “Que nós partamos nesse instante para uma ofensiva e não fiquemos na defensiva porque a defensiva será a vitória de fato dessas forças reacionárias que hoje investem contra o povo brasileiro”, pedia o então líder dos estudantes. Hoje, o senador do PSBD dá apoio ao movimento do dia 15 de março.

Pode-se esperar tudo de uma passeata organizada numa cidade que está em oposição ao Governo Federal. A mesma São Paulo foi escolhida em 1964 como cenário para manifestações, por ser o centro das classes produtoras. Era a capital do estado que impulsionou o Golpe. Na Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, banqueiros e empresários se juntaram à população, liderada pelo governador de São Paulo Ademar de Barros, retrato da corrupção, então conhecido pelo slogan “Rouba, mas faz”.  

As declarações do governador paulista Geraldo Alckmin sobre a presidenta se assemelham em muito ao que falava Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, sobre o Presidente do Brasil, na época, João Goulart. Alckmin acredita que se o regime atual no país fosse parlamentarista Dilma teria sido afastada.  “Se o regime fosse parlamentarista, o governo já tinha caído, porque perdeu a confiança. No presidencialismo, um impeachment é extremamente traumático”, disse o governador.

Hoje, os ataques constantes de alguns segmentos da mídia ao poder executivo são uma clara tentativa de desmoralizar o processo institucional. A moeda brasileira se desvalorizou 10% nos últimos 30 dias e cerca de 25% nos últimos quatro meses. As provocações podem abrir caminho para que seja instaurada uma grande crise institucional no Brasil. O presidente do Senado, além de cerca de outros 50 nomes envolvidos na Operação Lava-Jato levam o poder legislativo à desmoralização. 

A quem interessa um país desestabilizado? Um país onde os grandes e mais importantes centros urbanos já são marcados pelo crime. Assaltos, sequestros e todo tipo de violência são constantes e não permitem ao povo ter certeza se vivemos ou não em uma já declarada guerrilha urbana. O cenário só leva a um maior empobrecimento do país e a uma crise maior entre as classes sociais. JB.com.br